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2019

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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CMV E INFECÇÃO CONGÉNITA – A PERSPECTIVA DO NEONATOLOGISTA

Maria Teresa Neto.

Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central EPE. Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa

 - Curso Teórico "Infecções por Herpesviridae: da clínica ao diagnóstico".
2012. 7-10/05. Sociedade Portuguesa de Virologia. Faculdade de Ciências Médicas. Lisboa (Palestra).

O vírus citomegálico humano é a causa mais comum de infecção congénita. Apesar dessa elevada frequência e das sequelas que ocorrem numa parte dos infectados, não foi possível até à data encontrar uma vacina eficaz; terapêutica específica, eficaz e inócua; as medidas de prevenção primária não são específicas; não existe consenso quanto ao rastreio do estado serológico da grávida; não existe consenso quanto ao rastreio universal do recém-nascido.
A incidência de infecção congénita em Portugal não é bem conhecida. Estudos realizados a partir de amostras de sangue em cartões de Guthrie sugerem que pode atingir cerca de 1% dos nados-vivos.
Do mesmo modo não é conhecido o estado imunológico de grávidas na população portuguesa. Na maternidade do Hospital de Dona Estefânia a taxa de grávidas seropositivas era de 85% em 1988 e de 62% em 2010. A taxa de seroconversão calculada para a população da maternidade pode variar entre 0,4% e 3,6%. Nos EUA é aceite uma taxa entre 1% e 3%.
O estudo de vigilância epidemiológica da infecção congénita por CMV realizado através da UVP da SPP não veio acrescentar conhecimento neste campo. Foi estimada uma incidência de 0,042 casos de infecção sintomática por 1000NV. Dificuldades provavelmente relacionadas com défice de registo e eventual défice de diagnóstico podem ter condicionado esses maus resultados mas interessa realçar que, também num estudo de vigilância epidemiológica, o Reino Unido encontrou resultados semelhantes. Dos 18 casos sintomáticos 7 eram resultado de infecção primária na gravidez. Das 18 crianças só 10 foram seguidas em consulta e destas, 2 tinha sequelas da infecção congénita. No Registo Nacional da Paralisia Cerebral – coorte de crianças nascidas em 2001 - em 10 casos a PC foi atribuída a infecção congénita por CMV (9/100000 NV). Entende-se que o diagnóstico de uma infecção assintomática ou com sintomas ligeiros pode ser difícil nomeadamente se existir apenas RCIU mas S. Van der Weiden (2011) conclui que nesta situação deve ser feita pesquisa de vírus. Por outro lado em UCIN, muitas vezes os RN gravemente doentes têm clínica que pode ser atribuível a infecção congénita por CMV mas também a múltiplas outras causas pelo que é difícil comprovar que é ou não é infecção por CMV. Temos ainda que a terapêutica apresenta restrições importantes nomeadamente por atingir as gónadas, ser cancerígena e teratogénica. As indicações para a sua prescrição continuam muito restritas e precisas. O rastreio da grávida não é consensual, em Portugal está preconizado o rastreio pré-concepcional. O rastreio dos infectados não está indicado - o que nos levaria à primeira situação em que um rastreio poderia detectar verdadeiros positivos não afectados - nem tão pouco o rastreio das sequelas. A prevenção primária, apesar de inespecífica pode ser eficaz evitando até ¾ de seroconversões, se for dado divulgadas as vias de contágio e os procedimentos correctos que uma mulher seronegativa deve ter durante a gravidez.

Palavras-chave: CMV, diagnóstico, infecção congénita, rastreio, terapêutica.