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2019

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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ANAFILAXIA PERIOPERATÓRIA – ESTUDO RESTROSPECTIVO DE 119 DOENTES

João Antunes1, Ria Van Vuchelen2, Anne Marie Kochuyt2, Jan Ceuppens2.


1- Serviço Imunoalergologia, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Lisboa Central, E.P.E.;
2 - Clinical Department of Allergy and Clinical Immunology, University Hospital Gasthuisberg, KU Leuven, Belgium.

- EAACI Congress 2012, Genebra, 16-20 Junho 2012 (Comunicação oral).
- 33ª Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. Fátima, 5-7 Outubro 2012 (Poster com discussão).
- Prémio SPAIC / MSD 2012.

Introdução: A incidência de anafilaxia perioperatória varia entre 1:10,000 e 1:20,000. A mortalidade associada é de 3-10% e estima-se que 2/3 dos casos tenham mecanismo IgE-mediado. O presente estudo consistiu na análise retrospectiva de doentes com suspeita de reacção alérgica durante anestesia geral com relaxantes neuro-musculares (RNM).

Métodos: Foram incluídos 119 doentes, referenciados entre 2007 e 2011 O protocolo diagnóstico consistiu na história clínica, triptase sérica, doseamento de IgE específicas e testes cutâneos, segundo recomendações internacionais.

Resultados: O diagnóstico de anafilaxia IgE-mediada foi estabelecido em 79 doentes (66.4%). Os agentes mais comuns foram RNM (59.5%), antibióticos (12.7%), látex (8.9%) e clorhexidina (8.9%). Entre os RNM, o rocurónio foi o agente mais frequente (48.9%). Foram testados vários RNM alternativos na maioria dos casos para identificação de alternativas seguras. O vecurónio foi testado em 42 doentes com alergia a RNM e obtiveram-se testes intradérmicos positivos em 38 (reactividade cruzada: 90.5%), 18 dos quais com diluição 1:10 (47.4%).
Entre doentes sem exposição prévia a vecurónio, 80.8% apresentaram reactividade cutânea com diluição 1:10. O cisatracúrio foi o agente com menor reactividade cruzada em doentes alérgicos a outros RNM (13.9%).
A maioria dos doentes com diagnóstico de anafilaxia IgE-mediada referiu intervenções cirurgicas no passado, sob anestesia geral (62/79 – 78.5%) e nove reportavam reacções adversas prévias. Cerca de 1 em cada 5 casos de anafilaxia induzida por RNM ocorreu na na primeira exposição.
Encontrou-se associação estatística significativa entre asma e/ou rinite alérgica e reacções perioperatórias IgE-mediadas (p<0.005).A maioria das reacções IgE-mediadas ocorreu durante a fase de indução (74.7%), com excepção do látex – anafilaxia sobretudo durante fase de manutenção e recuperação (85.7%; p<0.001).
Alguns doentes com alergia ao látex (42.9%) apresentavam sintomas sugestivos de sensibilização antes da cirurgia.
A média dos valores de triptase foi significativamente superior nos doentes com anafilaxia IgE-mediada (p<0.002).

Conclusões: RNM, antibióticos e látex constituem os principais agentes implicados em anafilaxia perioperatória mas outros agentes, nomeadamente a clorhexidina, deverão ser também investigados. A referenciação destes doentes a centros com experiência é fundamental de modo a garantir o diagnóstico correcto e a assegurar alternativas farmacológicas seguras.

Palavras-chave: anafilaxia; anestesia; relaxantes neuro-musculares.