1 - Interno de Formação Específica de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Hospital Dona Estefânia, Unidade Local de Saúde São José, Lisboa.
2 - Interno de Formação Específica de Psiquiatria da Infância e da Adolescência Pedopsiquiatria, Hospital Garcia de Orta, Lisboa, Lisboa
3 - Interno de Formação Específica de Genética, Hospital Dona Estefânia, Unidade Local de Saúde São José, Lisboa.
- Publicação em Versão integral na revista “Gazeta Médica”
A psiquiatria tem sido um campo em constante evolução na medicina, mas os critérios diagnósticos e prognósticos atuais, bem como os tratamentos disponíveis, carecem ainda de aprimoramento científico e abordagens otimizadas. É difícil imaginar que a psiquiatria não venha a assumir uma importância crescente no futuro. As doenças mentais são, e continuarão a ser, uma das principais causas de morbimortalidade. A adequação dos sistemas taxonómicos convencionais e categoriais (DSM 5 e ICD 11) utilizados em saúde mental têm sido amplamente discutidas, considerando a sua criação através de dados estatísticos, mas sem ter em consideração o espectro da psicopatologia. Os avanços lentos na psiquiatria poderão ser, de certa forma, atribuídos a esta arbitrariedade dos diagnósticos dos sistemas categoriais. A esperança é que com um novo sistema de classificação, os estudos científicos que venham a ser realizados à luz destes novos sistemas taxonómicos permitam uma maior e melhor compreensão sobre as perturbações psiquiátricas. Atualmente, as guidelines, e consequentemente os tratamentos disponíveis em psiquiatria, revelam-se insuficientes, perante situações refratárias, em que a resposta terapêutica é insuficiente ou inexistente.
O estudo dos mecanismos fisiopatológicos das perturbações psiquiátricas poderá também ajudar na identificação de novas opções de tratamento mais eficientes. Destes mecanismos, ressalvam-se os processos inflamatórios e o seu impacto sobre os neurotransmissores, e consequentemente no humor, cognição e comportamento, não é recente. Atualmente não é possível a utilização de marcadores com intuito diagnóstico e prognóstico para as perturbações psiquiátricas, mas é provável que estes marcadores venham a surgir, à medida que mais se compreende sobre os mecanismos fisiopatológicos das perturbações psiquiátricas. Também a expansão de técnicas neuroimagiológicas para um ambiente não hospitalar, que ofereçam a possibilidade de medir marcadores biológicos e de detetar comportamentos específicos, através do recurso a equipamentos do nosso dia-a-dia, poderá ser possível, no futuro, colher mais informação cerebral e correlacionar os pensamentos e comportamentos quotidianos com alterações neuroquímicas. A grande vantagem destas técnicas seria poder ampliar a base de dados de informação neuropsiquiátrica num ambiente naturalístico, e detetar conteúdo psicopatológico mais precocemente, antes de uma perturbação estar claramente instalada. Em suma, com os avanços que se prevêem no campo da genética, neuroimagem e tecnologia, a psiquiatria será uma especialidade gradualmente mais científica, caminhando, à semelhança de outras especialidades em medicina, para uma intervenção mais personalizada.
Palavras Chave: biomarcadores; doença mental; farmacogenómica; psiquiatria de precisão;