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2024

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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SORTE MORAL: IMPLICAÇÕES CLÍNICAS

Maria João Lage1,2

1 - Unidade Funcional de Neonatologia, Área de Pediatria, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Lisboa.
2 - Gabinete de Segurança do Doente, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Lisboa.

- V Jornadas da Sociedade Pediátrica da Qualidade e Segurança do Doente, Porto, 15 de Dezembro de 2023

A sorte moral ocorre quando uma pessoa pode ser corretamente tratada como um objeto de julgamento moral, apesar de uma parte significativa do resultado da ação depender de fatores que estão fora de seu controle.
Nos cuidados de saúde, a sorte moral pode ter vários contornos:
A sorte resultante: temos as mesmas intenções do que o colega, fazemos os mesmos planos (e os mesmos erros) mas as coisas acontecem de forma muito diferente, por fatores fora do nosso controle. Se, em ambos os casos, somos avaliados moralmente de forma diferente, então temos um caso de sorte moral resultante.
A sorte circunstancial: sorte nas circunstâncias em que nos encontramos. Na análise de incidentes com consequências graves para os doentes existem muitas vezes circunstâncias desfavoráveis que se conjugam para facilitar o erro: cansaço, fim de semana, período da noite, equipa inexperiente, doente não verbal, fraca iluminação, muito ruido, etc.
A sorte constitucional: a sorte em quem se é ou nos traços e disposições próprios. Por exemplo, o médico mais tímido pode não ter coragem para confrontar um chefe autoritário e tentar evitar um erro que detetou durante um procedimento.
Como lidamos com a sorte nos cuidados de saúde?
Mesmo que o erro não tenha lesado o doente por uma questão de sorte, punir o profissional de saúde raramente tem eficácia na prevenção de erros futuros. A cultura mais eficaz para a prevenção do erro é a que reforça a responsabilidade individual, a aprendizagem e melhoria do sistema e a criação de barreiras ao erro e à lesão do doente
Como profissionais de saúde somos vulneráveis à sorte resultante: da nossa ação ou omissão, por fatores fora do nosso controle, pode resultar a vida ou a morte, o alívio ou o agravamento do sofrimento ou da incapacidade dos doentes.
Estamos também vulneráveis à sorte constitucional e circunstancial: estamos perante pessoas doentes em situações de pressão, com poucos recursos, equipas ineficientes, por vezes sem apoio ou descanso suficientes. Resistimos melhor ou pior a isto, em grau diferente de pessoa para pessoa.
No entanto, queremos assumir uma maior responsabilidade pelos doentes, pelos antecedentes e pelas consequências das nossas ações. Tentemos fazer isto em segurança, sem confiar na sorte!

Palavras Chave:  Segurança do doente, Sorte moral, saúde, erro.