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2024

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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PERTURBAÇÃO DE INGESTÃO ALIMENTAR EVITANTE/RESTRITIVA – UM “NOVO” DIAGNÓSTICO A RETER

Vitória Cadete1, Joana Reis Correia2, Madalena Ferro Rodrigues2, Sandra Pires2, Margarida Alcafache3

1 - Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central
2 - Unidade de Pedopsiquiatria, Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central
3 - Unidade de Adolescentes, Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central

- 11º Congresso Nacional de Medicina do Adolescente, poster.

Introdução: A perturbação de ingestão alimentar evitante/restritiva (ARFID) caracteriza-se por restrição alimentar, motivada por ausência de interesse em alimentar-se, recusa de alimentos baseada nas características sensoriais ou receio de consequências desagradáveis da ingesta, condicionando perda ou má progressão ponderal. Apresenta-se em idade mais precoce que a anorexia nervosa e, ao contrário desta, não se associa a medo de aumentar de peso nem distorção da auto-imagem.
Descrição:  Rapariga A, 13 anos, internada para investigação por perda de 13 Kg em 3 meses (IMC 15 Kg/m2), associada a amenorreia, alopécia, cefaleia, cansaço, intolerância ao exercício, tonturas e lipotímia. Referia alteração aguda do padrão alimentar após realização de trânsito esofágico 9 meses antes, para esclarecimento de tosse crónica. Inicialmente recusa alimentar quase total, seguida de recusa específica ao pão, iogurte e fruta. Por queixas de pirose, realizou pesquisa de H. pylori e endoscopia digestiva alta, sem alterações; medicada com pantoprazol. Posteriormente apresentou palpitações e tremores pré-prandiais. Rapariga B, 13 anos, internada por perda de peso e cruzamento de percentis com 6 anos de evolução (IMC 11,7 Kg/m2), inicialmente com restrição alimentar quantitativa, progressivamente qualitativa, até tolerar apenas dieta pastosa e líquida, tornando-se exclusivamente à base de sopa, fruta e leite. Referia sentimentos de tristeza sempre que se alimentava. Nenhuma das adolescentes apresentava distorção da imagem corporal. Tiveram seguimento multidisciplinar por Pediatria, Pedopsiquiatria e Nutrição. Foi realizada investigação etiológica para exclusão de patologia orgânica, nomeadamente avaliação analítica e ecografia abdominal, complementada com trânsito esofágico na Adolescente B. Não foram encontradas alterações, sendo o diagnóstico mais provável ARFID. Rapariga A iniciou reintrodução alimentar progressiva, sob esomeprazol e cloropromazina antes do almoço e jantar, com evolução ponderal satisfatória, alta em D21 a tolerar refeições na totalidade (+2,8 Kg, IMC 16 Kg/m2). Recuperação da menstruação um mês após o internamento. Rapariga B foi acompanhada por terapia da fala para treino de deglutição, com introdução gradual de texturas, e iniciou lorazepam antes das refeições e sertralina. Menarca na última semana de internamento. Alta em D90 (+11,4 Kg, IMC 16,6 Kg/m2) a tolerar refeições sólidas.
Conclusão: Estes doentes apresentam-se primariamente ao pediatra, pela sintomatologia decorrente da desnutrição. A abordagem destes casos leva invariavelmente a marcha diagnóstica diferencial, submetendo os doentes a exames complementares invasivos e atrasando a abordagem psicoterapêutica. É assim fundamental o reconhecimento e diagnóstico precoce.