1 - Área de Pediatria, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central;
2 - Unidade de Gastrenterologia Pediátrica, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central;
3 - Unidade de Imunodeficiências Primárias, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central;
4 - Unidade de Infecciologia, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central.
- Reunião nacional - 2ª Reunião SPIDP- SPP - A Interface Imuno-Gastroenterológica (poster com apresentação em sala)
Introdução: A doença inflamatória intestinal (DII) de início muito precoce (IMP) apresenta uma incidência crescente nas últimas décadas. Uma das formas de apresentação pode ser diarreia com sangue, surgindo a infecção gastrointestinal como diagnóstico diferencial. A DII apresenta alterações na microbiota e barreira intestinal, aumentando o risco de infeção por Clostridium difficile (CD), mesmo na ausência de antibioterapia.
Relato de caso: Caso 1: Criança de 32 meses com diarreia com sangue e muco, dor abdominal e tenesmo com um mês de evolução. Pesquisa de CD positiva (teste antigénio glutamato desidrogenase GDH e pesquisa toxinas A e B por imunoensaio), cumprindo 21 dias de metronidazol oral. Persistência dos sintomas dois meses depois, apresentando teste GDH positivo com pesquisa de toxina negativa. Colonoscopia total com atingimento descontínuo da mucosa, observando-se ligeiro edema, eritema, friabilidade e erosões. Biópsias sugestivas de colite activa ligeira. Iniciou messalazina. Repetiu colonoscopia aos 4 anos, por agravamento clínico: mucosa continuamente edemaciada e apagamento do padrão vascular a partir da sigmoideia até cólon transverso. Biópsias compatíveis com colite ulcerosa. Medicada com prednisolona sem recorrência de CD. Painel NGS DII (73 genes) negativo. Caso 2: Criança de 24 meses com diarreia com muco e sangue com um mês de evolução. Isolamento de E. coli enteropatogénica, medicada com trimetoprim-sulfametoxazol. Um mês depois recomeçou sintomas. Teste GDH e pesquisa toxinas A e B de CD positiva. Medicada com vancomicina oral. Por diarreia persistente, realizou colonoscopia, a qual foi inconclusiva. Iniciou messalazina. Por infeção recorrente (diarreia com sangue) fez novamente vancomicina oral (2º ciclo 10 dias; 3º ciclo 4 semanas em desmame). Repetiu colonoscopia revelando mucosa continuamente edemaciada, exsudado aderente abundante e friabilidade. Biópsias compatíveis com DII. Medicada com prednisolona. Aguarda resultados de estudo genético.
Conclusões: No caso de infecções gastrointestinais recorrentes ou atípicas em crianças jovens, deve surgir a suspeita de DII-IMP, sendo importante a sua orientação em consulta multidisciplinar, incluindo imunodeficiências primárias. Pela sobreposição de sintomas, colonização frequente por CD em crianças até aos 2 anos e a sua excreção prolongada, o diagnóstico de infecção por CD em doentes com DII mantém-se um desafio, sendo crucial existir um elevado índice de suspeição.
Palavras Chave: clostridium difficile, doença inflamatória intestinal, doença inflamatória intestinal de início muito precoce.