1 - Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central
2 - Unidade de Infeciologia, Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central
3 - Unidade de Neurorradiologia, Área de Neurociências, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central
4 - Unidade de Neuropediatria, Área de Pediatria, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central
5 - Nova Medical School, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal
- Comunicação oral “Cerebral Malaria in Europe: reduced availability of IV Artemisinine derivatives”, 39th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Infectious Diseases (ESPID), 24-29/05/2021
- Letter to the Editor “Cerebral Malaria and Cytotoxic Lesion of the Corpus Callosum”, The Pediatric Infectious Disease Journal. 2023; 42(9):e358-e359. doi: 10.1097/INF.0000000000003963
Introdução: A malária é uma preocupação significativa para a saúde a nível global. De acordo com a Organização Mundial de Saúde verificaram-se em 2020 229 milhões de casos de malária e 409.000 mortes em todo o mundo. A taxa de mortalidade é desproporcionalmente mais elevada em idade pediátrica, com um risco superior de malária cerebral (MC).
Relato de caso: Apresenta-se o caso de uma adolescente de 12 anos, natural da Guiné-Bissau, e admitida no serviço de urgência 2 dias após a vinda para Portugal com queixas de cefaleia, mialgias, febre e palidez. Após a admissão, iniciou vómitos, diminuição do estado de consciência, icterícia das escleróticas e hepatoesplenomegalia. Analiticamente, apresentava anemia e trombocitopénia, associadas a elevação significativa dos parâmetros inflamatórios. O diagnóstico de malária grave por Plasmodium falciparum foi confirmado pela presença de parasitémia elevada (28.5%) e envolvimento do sistema nervoso central (SNC). A investigação complementar realizada revelou pleocitose moderada (15células), lentificação difusa do traçado electroencefalográfico sem atividade paroxística e, imagiologicamente, a presença de uma lesão no esplénio do corpo caloso compatível com lesão citotóxica do corpo caloso (CLOCCs). Foi iniciado tratamento com quinino, clindamicina e ceftriaxone com melhoria progressiva e parasitémia negativa ao terceiro dia de internamento. Realizou seguidamente terapêutica com artemeter-lumefantrina, tendo tido alta após oito dias.
Conclusões: Apesar da baixa taxa global de mortalidade nos casos de malária na Europa, a MC compreende um risco considerável de envolvimento do SNC, nomeadamente com encefalopatia difusa e coma rapidamente progressivo. Ainda que não sejam especificas de MC, as CLOCCs são achados frequentes nesta patologia, traduzindo a vulnerabilidade do corpo caloso às citoquinas inflamatórias induzidas pela malária e ao edema citotóxico secundário. Em países não endémicos para malária, o diagnóstico de MC requer um elevado índice de suspeição, particularmente em idade pediátrica. Embora os achados neuro-imagiológicos na RM não sejam patognomónicos, encontram-se fortemente associados à MC e podem auxiliar no diagnóstico e início atempado de terapêutica dirigida.
Palavras Chave: artemisinina; CLOCC; malária.