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2020

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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CITOMEGALOVÍRUS CONGÉNITO E HIPOACUSIA SENSORIONEURAL REABILITADA COM IMPLANTE COCLEAR: RESULTADOS

Marta Mariano, Inês Chang, Susana Pereira, Tânia Lavra, Leonor Fontes, Nicole Santos, Luísa Varão, Vera Reimão Pinto, Isabel Correia, Inês Cunha, Herédio de Sousa, Ezequiel Barros

Serviço de Otorrinolaringologia e Cirurgia da Cabeça e Pescoço, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Lisboa

- Comunicação Oral - 66º Congresso da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia da Cabeça e Pescoço, 3 a 5 de maio de 2019, Peniche

Introdução: O Citomegalovírus (CMV) constitui a principal causa congénita não genética de hipoacusia sensorioneural (HSN). Dez a 15% das crianças com infecção congénita a CMV (cCMV) assintomática e 50% das com sintomas ao nascimento apresentarão sequelas, sendo a HSN a mais comum. O implante coclear (IC) é uma das opções de reabilitação nestas crianças. Vários estudos têm sido feitos para avaliar os ganhos auditivos e a capacidade de produção e compreensão da linguagem em crianças com HSN por cCMV reabilitadas com IC.
Objetivos: Avaliar os resultados do IC em crianças com HSN por cCMV e compará-los com os resultados obtidos noutras causas congénitas de HSN.
Material e métodos: Realizou-se um estudo retrospectivo das crianças implantadas no Hospital Dona Estefânia (HDE) até 2018. Criou-se um grupo teste com as crianças com HSN por cCMV (grupo CMV) e um grupo controlo com as crianças com HSN por outras causas (grupo não CMV). Excluíram-se crianças com HSN adquirida ou pós-lingual, perturbações graves do desenvolvimento não relacionadas com cCMV, seguimento posterior noutra instituição, informação clínica insuficiente ou seguimento pós IC inferior a 6 meses. Avaliaram-se as características gerais da amostra obtida, os limiares tonais e a inteligibilidade aos 65 dB em campo livre e os scores CAP, SIR, MAIS e MUSS com IC. Utilizou-se o software SPSS 25®, com aplicação dos testes Exacto de Fisher e Mann-Whitney U para comparação entre grupos. Assumiu-se um nível de significância de 5%.
Resultados: Das 94 crianças implantadas no HDE até 2018, obteve-se uma amostra de 63 crianças, após aplicação dos critérios de exclusão. Todas as crianças apresentavam HSN severa ou profunda. O grupo CMV foi constituído por 14 crianças e o grupo não CMV por 49 crianças. O grupo CMV apresentava 50% doentes do sexo masculino e 50% do sexo feminino, com mediana de idade de colocação do primeiro IC de 2,8 anos. O grupo não CMV apresentava 61% doentes do sexo masculino e 39% do sexo feminino, com mediana de idade de colocação do primeiro IC de 4,7 anos. Não se verificou diferença estatisticamente significativa entre o sexo e a idade de colocação do primeiro IC entre grupos (p = 0,543 e p = 0,095, respectivamente). Os limiares tonais médios em campo livre pós IC foram em média 24,9 dB no grupo CMV e 26,2 dB no grupo não CMV (p = 0,748). A mediana da inteligibilidade aos 65 dB foi de 100% para ambos os grupos (p = 0,478). Em relação aos testes funcionais, obtiveram-se medianas de 5 no CAP, 4 no SIR, 37 no MAIS e 31 no MUSS no grupo CMV, e de 5 no CAP, 4 no SIR, 38 no MAIS e 36 no MUSS no grupo não CMV, sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos para qualquer dos testes (p = 0,914; p = 0,605; p = 0,189 e p = 0,124, respectivamente).
Conclusões: Embora o CMV congénito se possa associar a outro tipo de sequelas, os resultados do IC são semelhantes aos obtidos noutras causas congénitas de HSN, pelo que o diagnóstico de cCMV não deve protelar a implantação.