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2020

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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AUSCULTAR E ESCUTAR – UMA REFLEXÃO DE CARIZ PSICODINÂMICO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA VINCULAÇÃO E DOS AFETOS

Rita Amaro1, Sofia Vaz Pinto1, Maria Francisca Magalhães1, Juan Sanchez2

1 - Médico interno, Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Área da Mulher, Criança e Adolescente, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Lisboa.
2 - Assistente Hospitalar Graduado, Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Área da Mulher, Criança e Adolescente, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, Lisboa.

- Congresso nacional: comunicação oral no XXX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e Adolescência (APPIA).

Introdução: As Cardiopatias congénitas (CC) são doenças que provocam grandes limitações físicas com necessidade de múltiplas intervenções cirúrgicas e internamentos. A doença no coração da criança – com uma carga simbólica tão intensa – mobiliza os corações dos outros à sua volta interferindo nas dinâmicas familiares e no desenvolvimento psico-afetivo, para além de todas as consequências orgânicas da doença.
Objetivos: A propósito de um caso clínico da consulta externa de Pedopsiquiatria, propor uma reflexão acerca dos aspetos psicodinâmicos de uma doença crónica, bem como pensar a necessidade de articulação entre as especialidades e a saúde mental.
Metodologia: Revisão seletiva da literatura no PubMed e B-On com as palavras “congenital cardiopathology”, “mental health”
Resultados: Com o disgnóstico de uma cardiopatia congénita, quer in útero, quer ao nascimento, há um confronto entre o bebé real, doente, que não corresponde ao bebé idealizado. Ter gerado uma criança com malformação fere o narcisismo da mãe. Está descrita uma maior dificuldade na interação com o seu bebé, mais ansiedade e níveis elevados de frustração quando não consegue acalmar o bebé, podendo existir uma perturbação da vinculação mãe-bebé. Parece haver um sentimento de culpa, com uma rejeição inicial ou negação da doença, que acaba por incrementar a culpa que, recalcada, pode manifestar-se sob o véu da superproteção, com persistência da relação simbiótica. O bebé com cardiopatia é percebido por toda a família como um ser muito frágil, em morte iminente – angústia de morte - e a mãe tende a manter-se ligada à criança, oferecendo proteção e cuidados, numa tentativa de reparação da sua culpa. A dor da culpa, da responsabilidade pelo sofrimento do filho leva à projeção desta culpa, o poderá levar a conflitos familiars. Verificou-se nestas crianças enfraquecimento do self, inibição do pensamento e das emoções, ansiedade, depressão, labilidade emocional, baixa auto-estima, sentimentos de morte e uma perceção de si próprias como sendo mais fracas, mais doentes, com mais propensão para doença psiquiátrica.
Conclusão: Olhar a saúde mental da criança e da família na doença crónica, nomeadamente na CC é essencial, devendo-se acolher a angústia promovendo dinâmicas familiares contentoras e adesão ao tratamento cardiológico.

Palavras Chave: Cardiopatia Congénita, Doença Crónica, Infância, Psiquiatria Ligação